Zezim e suas recomendações

Zezim e suas recomendações

110 Dias Antes

Horizonte, 25/03/16

Seis meses se passaram após o renascimento de Zezim, consideramos assim porque uma pessoa com 77 anos resistir a uma cirurgia de doze horas e praticamente sem sequelas só pode ser milagre, obrigado Deus por ser misericordioso.

Tocar nesse assunto depois de tantos relatos é como contar a história de trás para frente, é que só agora chegou em minhas mãos uma carta escrita por Zezim dias antes dessa cirurgia. Nessa carta ele deixa instruções para nós, caso alguma coisa desse errado durante o procedimento cirúrgico. Algumas dessas recomendações hoje já não têm importância, mas vale a pena compartilhar essa carta. Não antes de contar um pouco da odisseia que Zezim percorreu até chegar a esse momento crucial para todos nós que foi sua cirurgia.

Em meados do ano de 2013, ele começou a se queixar de um caroço que havia nascido em seu rosto. Minha mãe dizia que ele estava tendo problemas para mastigar e tinha medo de ele ficar surdo. Em minha ignorância e ingenuidade comecei a leva-lo para consultar – se com um Dermatologista, iniciamos um acompanhamento com esse médico. A cada dois meses realizava-se uma consulta, ele fazia um processo de queimação com hidrogênio e outros medicamentos no local lesionado e segundo o mesmo estava acompanhando a evolução, se ele notasse que esse procedimento não estava surtindo efeito, solicitaria uma biopsia. Até então sem nenhum problema aparente, mas as minhas irmãs concordaram entre elas que não estava servindo e decidiram consultar outro profissional. Deixei por conta delas e me afastei um pouco do caso.

Elas ainda procuram três Médicos ou mais, até que um deles solicitou a tal biopsia. Nessa busca o tempo foi passando e chegamos em 2014, ano de Copa e o mundo praticamente parou. O resultado só chegou após a copa e já sinalizava indícios de um Câncer, coincidentemente na mesma época que minha mãe entregou seus pontos e começou a mostrar sinais de que estava muito adoentada.

Dividimos as tarefas, consultamos os dois e minha mãe foi passar o mês de agosto em fortaleza na casa de uma das filhas, para se tratar de uma suposta “ulcera” que não sarava isso foi o que o disse o especialista que a consultou e que se intitula o melhor de Sobral. Meu pai foi atendido por um cirurgião plástico que disse que retiraria o nódulo e sua aparência ficaria perfeita, quase não seria notado cicatrizes no local. Outro que também que é tido como o Melhor de Sobral.

Acreditávamos que os melhores estavam cuidando dos dois e que tudo ficaria bem. Ledo engano, em setembro ambos foram submetidos a procedimentos cirúrgicos na mesma semana. Meu pai se se operou e no mesmo dia foi para casa. O caso de minha mãe só se agravara, ela estava desidratada entre outras complicações. Teve que ser internada e ser medicada durante uma semana para só depois ser submetida a sua cirurgia, enquanto estava internada foram realizados vários exames, entre eles tomografia e ressonância que não mostrava nada demais. Acreditávamos que tudo estava bem e logo ela iria para casa. Organizamos uma força tarefa e praticamente nos mudamos para o hospital, em nenhum momento a deixamos só. Chegado o dia da cirurgia, eu e minha Irmã Luzia estávamos juntos no hospital e aguardamos tensamente pelo que parecia uma eternidade, sem notícias. Até que um residente mandou chamar alguém da família, senti minhas pernas pesarem, um nó no estomago e um aperto no coração, eu e minha irmã fomos encaminhados para uma pequena sala onde uma equipe nos aguardava.

É engraçado como os médicos conseguem transmitir as piores notícias com uma tranquilidade de uma criança que se deleita com um brinquedo novo. Apenas um deles falava, os outros pareciam figurantes de novelas das oito apenas balançavam a cabeça e escreviam e/ou fingiam escrever. Ainda me lembro das palavras que ele usou, “A cirurgia foi bem-sucedida, sua mãe passa bem. Logo mais ela será encaminhada para o quarto e vocês poderão vê-la, só que não foi possível fazer nada porque todo o seu organismo está comprometido. Apenas abrimos e fechamos. O que vocês pretendem fazer levar para casa, deixar mais uns dias internada? Vão contar para ela ou preferem que ela não saiba seu real estado de saúde? Em suma, ela é portadora de um CANCER e o mesmo já está bastante avançado e ninguém consegue viver sem organismo. Alguma dúvida? ” Disse isso e todos se retiram do pequeno cômodo, ficando na saleta apenas eu e minha irmã, me senti como se estivesse em um carrossel minha cabeça girou não sei quantas vezes. Acredito que nessa hora Deus me segurou em seus braços e eu tive força para dar essa triste notícia aos outros irmãos. Tentando resumir essa trágica história ela só resistiu mais uma semana e deu seus últimos suspiros de vida em nossa casa.

Passaram-se três meses, após esse episódio as coisas ao nosso redor foram mudando. Minha irmã de Fortaleza veio para cuidar da casa e no pacote incluía meu pai e o meu irmão Antônio (saudoso Marram). Zezim começou a se queixar de dores, não aguentava nem comer. O Dr. que fez sua cirurgia por ser um cirurgião plástico fez a parte dele, só que depois dessa cirurgia os exames que foram feitos inicialmente todos sumiram. Será porque poderiam ser provas contra ele? Não quero julgar ninguém, mas que é um fato curioso e suspeito não resta dúvidas. Tentando organizar a vida e botar a cabeça no lugar, cada um foi seguindo sua vida.

No mês de fevereiro do ano passado eu me mudei para São Paulo, tentando recomeçar e aprender a conviver faltando um pedaço.  Foram sete meses de aprendizados intensos e ao mesmo tempo angustiantes. Nesse ínterim, Zezim vagava de hospital em hospital e ninguém lhe dava o alento que ele tanto procurava, até que a prima Geane a qual somos gratos tomou a iniciativa de trazê-lo para Fortaleza e ele foi ficando por aqui mesmo. Conseguiu ser atendido por um Oncologista e a partir daí foi que tomamos ciência do seu quadro de saúde.

Esse profissional através de vários exames detectou o tal do CARCINOMA. Diante deste diagnóstico iniciou-se uma via sacra por conta da cirurgia, se não me engano ele chegou a ir cinco vezes para a mesa de cirurgia e não dava certo. Todas às vezes eu ficava doente por estar longe e nada poder fazer. Os médicos eram bem cientes e conscientizaram toda a família de que seria uma operação arriscada por vários fatores, entre eles a idade. Deus foi tão maravilhoso que preparou tudo para que eu pudesse voltar e estar junto da família. Enquanto estava fora, muita coisa passava pela minha cabeça. Um de meus receios era que ele não resistisse ou então das possíveis lesões que poderia acontecer era ele ficar inconsciente e não me reconhecer mais.

A cirurgia foi marcada para três dias após a minha chegada. Cheguei de surpresa, apenas uma das irmãs sabia. O reencontro com Zezim foi emocionante, nosso abraço foi mais terno e carinhoso que final de filme romântico, nossa trilha sonora foram às batidas dos nossos corações.

Esse encontro aconteceu em um fim de semana e na segunda-feira muito cedo Zezim e Eliane se dirigiram para Hospital. Parecia um cordeiro se encaminhando para o abate, mostrou-se firme e confiante, demos um abraço e ele disse: “eu volto”. A imagem dele entrando no carro e acenando com a mão marcaram esse dia.

Foi um dia longo, tenho a impressão que esse teve trinta e seis horas. Sem notícias, sem vontade de comer, ficamos em casa eu e minha irmã Francisca. Não havia diálogos, apenas trocas de olhares, cada um imerso em sua dor. Já se passava das vinte horas da noite quando tivemos notícias de que a cirurgia havia sido um sucesso, ele já estava consciente e logo mais iria para o leito. Ouvindo isso meu coração pulou, cai de joelhos no chão e chorei colocando para fora toda a angústia que me consumira até aquele momento.

Todos os dias agradecemos a Deus por esse milagre em nossas vidas.  Houveram algumas complicações até o momento de Zezim voltar para casa, mas não vou descrever ao menos por enquanto, esses acontecimentos merecem um capitulo a parte.

Alguns dias depois da operação enquanto organizava e limpava o quarto, achei a carta estava junto com os livros que ele gosta de ler. Minha irmã disse que não sabe que horas ele redigiu essa missiva, porque sempre estava junto dele. Não pude conter a emoção ao ler esse documento. Pessoas de posses fazem testamento e dividem os bens entre os seus, Zezim nos deixou um manual onde o mais importante para ele é a união familiar. Eu poderia apenas comentar alguns trechos, mas a emoção poderia se perder em meio a minha interpretação das palavras dele.

Leia a tão falada carta e não prenda a emoção, sintase à vontade para chorar se preciso for.

“Minhas recomendações que deixo para todos vocês. Muita união entre vocês, meus filhos, que continue se encontrando sempre e fazendo festinhas, a vida não acaba eu vou para Deus, quem fica continua a missão. Não chores por mim se o tempo chegou, não pense que irei triste pois se é por Deus irei muito contente pois não vim para ficar, mais bem que eu queria ter mais tempo com vocês se Deus assim o permitisse, mais também digo que Ele faça o melhor, essas palavras me conforta, portanto digo a vocês a vida não para. Entrego vocês a Deus e agradeço por tudo que fizeram por mim pois sei que fizeram o melhor. Agradeço Ao Nilsim por todo seu amor e carinho que tem me dedicado, ao César por todo os seus cuidados e zelos com todos, ao Adalto e ao Ronaldo por toda sua dedicação e as minhas noras Maria e Diana peço que tenham por elas muita consideração. Vejo que devo tudo a vocês. Não deixo de agradecer também a Lúcia e o Edmílson, que Deus abençoe a todos. O Antônio eu deixo aos cuidados da Francisca e do Benedito e peço que todos os ajude no que for necessário. Escrevo isso e será válido para todos. Deus ainda pode nos dar muitos anos de vida juntos, só Ele é quem sabe. Mais se alguma coisa acontecer fiquem atento, se o benefício do Antônio não sair a pensão  é certa, tem que saber procurar, não percam tempo peguem a certidão de óbito xeroque junto os meus documentos e os dele e leve até o INSS e será rápido. Outra recomendação procurem a minha certidão tirem cada um uma xeroque autentique e guardem servirá para garantir a filiação de vocês. Deixo essa carta como lembrança para vocês, estou feliz vi os meus netos e os bisnetos sei que só se Deus me permitir. Agradeço a Deus pela a família que Dele recebi não fiz tudo mais fiz o que pude. E assim fico, Deus abençoe a todos.”

José Martins Rodrigues

Considero essa página do diário a mais difícil de ser registrada e a mais dolorosa também. Foi como se eu tivesse revido todas as sensações e sentimentos novamente. As emoções fluíram juntamente com os sentimentos e as lembranças tristes me fazem companhia hoje à noite. Amanhã será um novo dia e uma nova história será escrita, eu espero.

Isso é tudo por hoje…

Obs.: Fragmento do Livro Diário de Um Câncer de autoria de Tatá Arrasa

(O mencionado livro pode ser adquirido através do Projeto Gesto de Amor Contra o Câncer, basta clicar no link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/gesto-de-amor-contra-o-cancer sua contribuição é muito importante…)

O Câncer não pode ser mais forte do que o Amor!

Deixe um Comentário

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *