A Tristeza é Cinza Para Volúpia

O dia amanhecera nublado, uma bruma densa envolvia o sol e tudo ao redor parecia cinza. Como se tivesse sido contagiada pela alteração climática Volúpia não ouviu o alarme do despertador soando, acordou tarde, perdeu o horário.

Em seu semblante sorumbático percebia-se que aquela mulher não estava bem. Mecanicamente arrumou-se para trabalhar, vestiu a primeira roupa que encontrou pela frente. Sem ânimo, sem apetite, apenas provou a comida e deixou o prato de lado. Olhou para o nada, lembrou do dia anterior do momento que encontrou Hermes no clube, parecia um bom marido e um pai atencioso. Fechou os olhos, desejou com todas as forças do seu coração que ele fosse feliz, rezou uma prece: “Oh Senhor Jesus, afasta de mim pensamentos rancorosos. Não permita que a maldade e o egoísmo façam morada em meu coração, afasta de mim todo o mal. Amém.”

O toque do celular a despertou de seus devaneios, os olhos brilharam, um sorriso ainda que tímido surgiu em seus lábios e um pouco de cor preencheu aquele dia cinzento. Desejo acabara de enviar um áudio para ela: “Oi minha rainha, amante amiga, estou com saudades de você. Desculpa pelo sumiço, por causar preocupação, depois que estive em sua residência as coisas em minha casa fugiram um pouco do rumo. Minha mãe surtou, tive que chamar o médico, eles vieram e a levaram para o hospital. Ela precisou ser sedada, permaneceu dois dias em observação. Mas, agora tudo está sobre controle, já estamos em casa novamente. Um beijo, a noite falarei mais com você. Fique bem!” Ouvir a voz do Superboy foi como um alento para Volúpia, dissipando um pouco da tristeza que a consumia.

Tomou um café e retornou para o seu trabalho mesmo sem energia, sua única vontade era que aquele dia findasse logo. Contava as horas, tinha a impressão de que quanto mais ela pedia para os ponteiros correrem mais eles se arrastavam. Sentiu-se mais energizada quando chegou a hora de ir embora, não quis ir à academia, foi direto para a lanchonete pediu um suco de Açaí, essa foi toda a sua alimentação. Bebeu o sugo vagarosamente, como se o líquido virasse pedra na garganta. Pagou e foi embora.

Concentrada na direção, embebida em sua melancolia mudou a trilha sonora, selecionou músicas antigas para ouvir. A primeira a ser selecionada foi a música: “I’ve never been to me – Eu nunca fui eu mesma” da cantora Charlene:

“Ei moça, você moça

Amaldiçoando sua vida

Você é uma mãe descontente

E uma esposa dominada

Eu não tenho dúvida

Que você sonha com as coisas que nunca fará

Mas eu queria que alguém tivesse conversado comigo

Como eu quero conversar com você” […] Obs.:  trecho da tradução

Ao chegar em casa, fez tudo diferente do que sempre fazia. Afinal sua rotina estava bagunçada e ela nada podia fazer para corrigir, ao menos não naquele momento. Desceu do carro apressadamente, caminhou em passos largos pela estrada de pedra, entrou pela porta da frente indo direto para uma porta que ficava embaixo da escada. Parou em frente da mesma, segurou a maçaneta, não tinha certeza se queria mesmo entrar ali, olhou para trás, olhou para si mesma como se precisasse pedir permissão para atravessar aquele portal. Uma porta separava Volúpia de quem era ela e de quem fora, vacilou por alguns instantes, decidiu fazer a travessia. Afinal, o passado já a rondava por alguns dias, por que não o enfrentá-lo de frente.

Girou a maçaneta, olhou escada abaixo indecisa se descia ou não o primeiro degrau, apertou o interruptor ao lado do corrimão, suas pernas tremiam, tinha medo que algum monstro a empurrasse, agarrou com toda força o corrimão de madeira e desceu devagar degrau por degrau. A madeira rangia com o peso aumentando o seu pavor. No fim da escada, estancou e pôs-se a observar, quanto tempo não entrava naquele aposento, porque ela fugia dela mesmo, o que poderia descobrir ali que pudesse libertá-la do passado? Correu os olhos pelas prateleiras, estantes, caixas e embrulhos etiquetados preenchiam os espaços. Brinquedos Volúpia criança, livros e artigos da Faculdade; fotografias. Ao lado de uma estante avistou um quadro coberto por um tecido amarelado pelo tempo, passou o dedo pela poeira, assoprou o próprio dedo para eliminar o pó. Sua mão queria levantar o pano, mas seu coração começou a bater rapidamente e ela preferiu não descobrir, ainda não se sentia preparada para aquele encontro.

Ela sabia bem o que procurava ali, separou uma pequena caixa cuja etiqueta era: “história” pegou o que queria, já ia subir, parou ao pé da escada e olhou para trás: “Um dia eu volto, quando eu tiver coragem de olhar para mim mesmo sem medo de me enxergar. Adeus.” Seus olhos marejaram, ela subiu escada acima. Fechou a porta com toda força, como se pudesse impedir que a Volúpia do passado viesse acompanhada da Volúpia do presente, foi direto para a sala de vídeo com a pequena caixa embaixo do braço.

Acendeu a luz da sala, ligou o som e o sincronizou com o celular para continuar a ouvir a mesma música que ouvira no carro, sentou-se no chão ao lado da poltrona vermelha de veludo, estirou as pernas, pegou a pequena caixa. Alisou a etiqueta, virou a caixa de todos os lados e lentamente começou a desfazer o nó do barbante que estava amarrado na caixa:

“Ei, você sabe o que é o paraíso?

É uma mentira

Uma fantasia que criamos sobre pessoas e lugares

Como nós gostaríamos que fossem

mas você sabe qual é a verdade?” […] Obs.: trecho da tradução

Como um rito de passagem o nó foi desfeito, a caixa aberta e Pandora acabara de libertar o maior de todos os males, aquele que foi o responsável por sua derrocada e os anos de depressão que quase dizimaram a sua vida: retirou pouco a pouco o conteúdo da caixa: fotos; cartas e um diário coberto de couro. Segurou o grosso livro nas mãos, hesitou se deveria abrir ou não, agora já era tarde para encerrar aquela viagem ao passado. Abriu, chorou ao ler o título na primeira página: “História de um amor” Volúpia escreveu esse diário durante o período em que esteve com Hermes, com lágrimas nos olhos virou a segunda página:

“Da noite em que te esperei e vi:

O dia amanhecer, o sol chegar de mansinho, a noite se arrastar, a madrugada derramar o silêncio nos ponteiros do relógio que não param de correr de uma forma lenta e enfadonha, o frio que corria pela espinha, o desejo de estar contigo, a sensação de abandono, a dor da espera, o cansaço, a melancolia e as lembranças de tudo que um dia vivemos.

Pode ter sido a noite mais longa ou a última em que te espero. Das muitas noites em que te esperei, essa doeu mais. Pois, havia sido marcada, protelada, combinada havia o peso do compromisso. Como daquela vez que te esperei no final da festa e você se juntou a outro alguém, deixando-me com cara de boba na frente do clube, ali fenecia um pouco de mim. Desde o início da noite meu corpo se preparara para receber o seu toque, meus ouvidos ansiavam pelo som de sua voz, meu espírito estava relaxado e por várias vezes cheguei a sentir sua mão a me acariciar. Prefiro acreditar que tudo foi um sonho que não teve um final feliz, apenas a noite não terminou como eu havia planejado e a partir daquele momento eu comecei a ter certeza de muita coisa em relação a nós dois.

Seu toque já não é mais o mesmo, nosso momento íntimo já não é mais como das primeiras vezes, chega a me machucar e até me deixa dolorida por vários dias. Você já não relaxa e nem se entrega por completo, só se preocupa em consumar o ato, suas palavras chegam a ser grosseiras, suas ações deixam bem claro o que você pensa, e suas desculpas me fazem sentir-se uma tola.

Ainda ressoam em meus ouvidos as palavras que você usou para responder, quando eu te perguntei: (O QUE EU SIGNIFICO PARA VOCÊ?) acho que só queria me enganar, quando na verdade eu já sabia o que você responderia. Pelo menos em um instante você foi sincero e eu pude enfim compreender que AS PESSOAS SÓ FAZEM CONOSCO, O QUE PERMITIMOS QUE ELAS FAÇAM, porém chega um momento em que não dar mais para resistir, as forças se esvaem e a dor chega ao limite do ser, exaurindo todo e qualquer sentimento ainda encantado.

Estou cansada, fragilizada, tentando me recompor. Sem saber o porquê de você sempre me tratar mal, fazer-me sentir-se indiferente. Quando tudo o que faço é para te ver bem e feliz. Não é justo, um doar-se mais e pouco receber em troca. Estou sempre a sua disposição para o que você quiser, mas, você nunca estar a minha e quando eu cobro sou chamada de criança. Criança essa que você não leva a sério e nem considera, que uma hora vai cansar de te esperar e será tarde demais para recuperar o tempo perdido.

Não quero que você me veja como um estorvo em sua vida, queria que você me visse como: um momento de alegria e satisfação, não como uma mera responsabilidade. Se for, para você vim me ver? Que venha, mas, porque sentiu vontade de vir e não porque eu pedi ou se sentiu na obrigação.

O amor se torna mais forte com a ausência e cresce no silêncio de um olhar.

Estou muito magoada com você, um beijo ainda….”

Fechou o diário, deixou as lágrimas molharem o seu rosto, soluçava respirando alto. Depois desse dia Hermes passou três meses sem aparecer, ela procurava por ele, perguntava aos amigos se alguém tinha notícias dele, nada a consolava. Até que um dia do nada ele apareceu em sua casa, sabendo de todos os pontos fracos daquela mulher calando a boca dela com um beijo, se amaram loucamente, se entregaram a paixão e tudo ficou em paz entre eles.

Com o choro sobre controle, levanta-se vai até a cozinha, bebe um copo com água e volta para a sala, será se ainda tem coragem de continuar a leitura?

Tatá Arrasa

Nota do Autor: (Se você estiver gostando dessa história, por favor comente, compartilhe e marque os amigos. Use a hashtag: #leianocafofodaloba )

Obrigado

 

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