Super-herói da vida real

Horizonte, 05/02/16
Quando era criança sonhava em ser super-herói.
Assistia aos filmes do Super Homem na sessão da tarde e depois queria sair voando. Desejava encolher ou então atravessar paredes e às vezes sumir por algumas horas para não levar bronca da minha mãe. O que nunca aconteceu, o máximo que conseguia eram hematomas de queda de janelas e alguns arranhões.
Aí crescemos e descobrimos que para sobreviver é preciso ser herói de verdade, só que sem capa mágica ou escudo protetor. O mundo castiga mais forte e dói muito mais que castigo de mãe. O que antes era fantasia cede espaço para admirar as pessoas com as quais você convive e apreciar seus poderes especiais. Sinto bastante orgulho dos meus pais, porque com poucos recursos conseguiram criar 11 filhos e o melhor educá-los e fazerem deles pessoas de bem, integras e acima de tudo honestas.
Hoje posso afirmar que meu Super homem é meu pai. Não voa, não tem visão de raio X e nem é forte o suficiente para deter um trem ou segurar um avião. Mas, consegue conter a dor da perda e/ou as dores que o Câncer lhe provoca e sorrir. Não reclama e nem grita apenas emite um gemido e diz “vai passar”. Toda vez que ele fala de sua amada, a voz é carregada de um pesar e uma tristeza profunda. Afinal, foram 55 anos convivendo juntos.
Quando ele fala que está sentindo dor, minha vontade é pegar a parte de mim que julgo sadia e dar a ele.
Só se queixou de dor na hora da janta e por isso não queria comer, mas como era um caldo bem leve bebeu todo e suportou a dor. Ao menos não teve febre e se mostra bem-disposto. Acho que meu herói precisa de pilhas novas… Hoje caminhamos manhã e tarde, não fomos para a sessão de radioterapia porque o aparelho continua quebrado e sem previsão de reparo.
E isso foi tudo por hoje…
Diário De Um Câncer, pág. 29
@letrastataarrasa

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